Espelho Respostas Etapa de Avaliação Escrita
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Universidade Federal de Alagoas
Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa
Programa de Pós em Ensino e Formação de Professores
ETAPA DE AVALIAÇÃO ESCRITA
EDITAL Nº01/2025- CPG/UFAL/PPGEFOP –
SELEÇÃO DISCENTE MESTRADO EM ENSINO E FORMAÇÃO DE PROFESSORES
Espelho de respostas
Questão 01
Os candidatos precisam demonstrar o uso correto da linguagem, segundo as
normas cultas da língua portuguesa, expressando as ideias de modo coeso,
coerente, direto e não ambíguo. Além disso, o texto deve expressar argumentos
em acordo com a bibliografia proposta.
a) Para a letra “a”, é solicitada discussão do conceito de democracia racial a partir
da bibliografia apresentada, bem como com base na letra da canção Negro
Drama. O principal ponto a ser abordado é a ideia do mito da democracia racial
com sua devida conceituação (a ausência da conceituação ou equívoco terá a
pontuação zerada).
O mito da democracia racial prega que no Brasil todas as etnias (ou raças)
convivem harmoniosamente, sem nenhum tipo de prejuízo, particularmente a
negros e demais minorias. Assim, nega as desigualdades existentes em função
da raça. Este é reforçado pelo conceito de miscigenação, que visou construir uma
imagem da sociedade brasileira mestiça, formada a partir da mistura de raças
(branca, preta e indígena), um artifício ideológico para negar o racismo, já que
não existe brancos e pretos, apenas mestiços. Entretanto, tais ideias mascaram
as condições/impedimentos impostas aos negros, como é apresentado na letra
da canção. Diferentes versos podem ser explorados, tais como “A ferida, a chaga,
à procura da cura / O drama da cadeia e favela / Túmulo, sangue, sirene, choros e
velas”, que apontam para o problema do racismo ainda aberto, uma ferida
exposta. Historicamente marginalizados, negros ocuparam regiões periféricas
nas quais as favelas foram formadas. Nestes espaços, o Estado pouco chega com
seus serviços, exceto as forças policiais. Estima-se que 90% das pessoas mortas
pela polícia no Brasil são negros. Outros versos podem ser utilizados, entre eles:
Cê tá dirigindo um carro / O mundo todo tá de olho 'ni você”. Este explora a
comum situação de racismo em espaços diversos.
b) No caso da letra “b”, o papel central das ações afirmativas é justamente
proporcionar reparação histórica às chagas ainda abertas e criadas pelo
processo de escravização. Considerando que direitos fundamentais foram
negados por lei aos negros após a abolição, eles se viram em condições
subalternas e marginalizadas, vivendo nas periferias urbanas, o que obstaculizou
o processo de inclusão em diferentes esferas sociais. Como consequência, a
ascensão social historicamente tem se dado muito por meio dos esportes, em
particular o futebol, e da música, como aborda a letra: “futebol, música, carai'/Eu
também não consegui fugir disso aí/Eu sou mais um (0,5 pontos). As poucas
oportunidades de projeção social levam em muitas situações à adesão de
práticas criminosas. Diante disso, as ações afirmativas constituem o campo de
políticas de inclusão social, que foram inicialmente pautados nos setores
públicos, mas ganham também espaço no setor privado, além de se estenderem
a outros grupos sociais historicamente marginalizados.
Questão 02
Os candidatos precisam demonstrar o uso correto da linguagem, segundo as
normas cultas da língua portuguesa, expressando as ideias de modo coeso,
coerente, direto e não ambíguo. Além disso, o texto deve expressar argumentos
em acordo com a bibliografia proposta.
a) Paulo Freire critica de maneira contundente qualquer visão tecnicista ou
meramente instrumental da formação docente. Para ele, formar professores é
formar sujeitos éticos, críticos e comprometidos com a transformação social, e
não apenas treiná-los para aplicar conteúdo. Isso confronta diretamente o cenário
retratado na charge e no infográfico, onde a formação insuficiente dos docentes
produz fragilidade profissional, baixa valorização e precarização.
Freire afirma que “formar é muito mais do que puramente treinar o educando no
desempenho de destrezas”. Essa advertência revela que a superação da
formação inadequada exige uma perspectiva mais ampla, que integre dimensões
éticas, políticas, epistemológicas e humanas da docência.
Entre as contribuições centrais:
1. A necessidade de uma formação crítica e rigorosa
Freire defende que o professor deve atuar como sujeito pesquisador, produtor de
conhecimento, e não como simples transmissor. Para isso: “Ensinar exige
rigorosidade metódica [...] criar condições em que aprender criticamente é
possível.” Essa visão inspira políticas e práticas de formação que promovam
análise, reflexão e construção ativa do saber docente.
2. Valorização da ética, autonomia e dignidade
Freire lembra que o respeito à autonomia do educando é um imperativo ético, e
o professor precisa viver essa ética para poder ensiná-la: “O respeito à autonomia
e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor.” Uma formação
docente coerente deve, portanto, cultivar uma postura ética e humana, contrária
à lógica tecnicista que reduz o professor a mero executor.
3. O professor como sujeito político e transformador
Freire insiste que a educação é uma forma de intervenção no mundo, e que o
docente deve agir com consciência crítica: “Ensinar exige compreender que a
educação é uma forma de intervenção no mundo.” Essa compreensão reforça o
papel ativo do professor na luta contra estruturas que precarizam a profissão.
4. A luta pela dignidade como parte da prática docente
Freire integra à formação docente a dimensão da luta pelos direitos profissionais:
“A luta dos professores em defesa de seus direitos e de sua dignidade deve ser
entendida como um momento importante de sua prática docente.” Assim,
enfrentar o cenário de má formação também passa pelo fortalecimento político
da categoria.
5. Formação integral e humanizadora
Em oposição direta à lógica que produz professores despreparados ou
desmotivados, Freire afirma: “Num momento de desvalorização do trabalho do
professor [...] a pedagogia da autonomia apresenta elementos constitutivos da
compreensão da prática docente enquanto dimensão social da formação
humana.” A formação docente deve, portanto, compreender o professor como
sujeito histórico-social, e não como técnico isolado.
b) Paulo Freire reconhece explicitamente que a docência, no Brasil, está
historicamente marcada pela desvalorização, salários imorais e condições
materiais inaceitáveis, o que impacta tanto a prática docente quanto a atratividade
da carreira.
Ele denuncia esse cenário afirmando:
“O professor precisa de condições favoráveis, higiênicas, espaciais, estéticas,
sem as quais se move menos eficazmente no espaço pedagógico. Às vezes as
condições são de tal maneira perversas que nem se move.”
Essa precarização afeta diretamente a qualidade da educação e contribui para a
fuga de profissionais da carreira docente.
A desvalorização como forma de desumanização
Freire vincula a precarização do trabalho docente às práticas sociais e políticas
que desumanizam professores e estudantes: “O desrespeito a este espaço é uma
ofensa aos educandos, aos educadores e à prática pedagógica.” Isso mostra que
a desvalorização não é apenas material, mas também simbólica e ética.
O papel político do professor diante dessa realidade
Freire reafirma que a docência é sempre um ato político e que não existe
neutralidade:
“Não posso ser professor se não percebo que, por não poder ser neutra, minha
prática exige de mim uma definição.” A desvalorização docente é fruto de
escolhas políticas e econômicas que tratam a educação como gasto e não como
investimento; por isso, enfrentá-la é também tarefa política do professor.
Luta coletiva pela dignidade profissional
A precarização da carreira, denunciada pela charge e pelo infográfico, é
diretamente enfrentada pelo pensamento freireano: “A briga por salários menos
imorais é um dever irrecusável e não só um direito.” Assim, Freire deixa claro que
a luta pela valorização é parte da ética docente.
A baixa atratividade da carreira como resultado de uma política de descaso
Freire também denuncia o risco de o professor cair no “cansaço existencial” e no
“fatalismo cínico” diante de tanto descaso com a educação pública: “A custo de
tanto descaso pela educação pública [...] correr o risco de cair no indiferentismo
fatalistamente cínico.” Esse processo está diretamente relacionado à baixa
procura pela carreira docente e ao abandono da profissão.