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                    Os desafios na formação de futuros
preceptores no contexto de
reorientação da Educação Médica

Denise H. Afonso
Lia M. C. da Silveira

Resumo

Preceptor: profissão

A intenção deste texto é discutir a importância do preceptor numa sociedade que
muitos conceituam como “sociedade intensiva
em conhecimento” onde se caracteriza, ao lado
da “globalização”, do acesso à informação, uma
crescente demanda por aprender. Neste contexto
inclui-se a expectativa sobre produção e uso
de tecnologias em educação, em particular na
educação à distância.
Em nosso país, políticas públicas cumprem
o seu papel de orientar as diretrizes de cuidado, educação e gestão na saúde. No Brasil a
especialização da preceptoria e a definição das
competências destes profissionais emerge como
tema recorrente quando se discute a qualidade
de implementação das políticas de incentivo
governamental citadas anteriormente.
A profissionalização da preceptoria não
avançará se não for deliberadamente estimulada por políticas que incentivem e valorizem
a formação dos preceptores. Precisamos de
um referencial de competências que, mais do
que instrumento reservado ao especialista da
educação se constitui meio para os preceptores
construírem uma identidade coletiva.

estratégica

PALAVRAS-CHAVE: Educação de profissionais de saúde; Competências; Preceptor.

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Revista do Hospital Universitário Pedro Ernesto, UERJ

A intenção deste texto é discutir a importância do preceptor numa sociedade que
muitos conceituam como “sociedade intensiva
em conhecimento”1 onde se caracteriza, ao lado
da “globalização” do acesso à informação, uma
crescente demanda por aprender. Neste contexto
inclui-se a expectativa sobre produção e uso
de tecnologias em educação, em particular na
educação à distância.
Em nosso país, políticas públicas cumprem
o seu papel de orientar as diretrizes de cuidado,
educação e gestão na saúde.
Para o cuidado, organizamos práticas de
atenção à saúde a partir dos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde, em destaque na
Lei 8.080, de 19 de setembro de 1990:2 equidade,
integralidade e universalidade do cuidado.
Na educação, ao buscarmos as orientações
para a formação dos profissionais de saúde no
nível de graduação encontramos as Diretrizes
Curriculares Nacionais de Graduação3 dos cursos das áreas de saúde que, desde 2001, assumem
como competências gerais esperadas destes
egressos a atenção à saúde, comunicação, tomada de decisões, administração e gerenciamento,
liderança e educação permanente.

Os desafios na formação de futuros preceptores no contexto de reorientação da Educação Médica

Na busca por uma integração entre as diretrizes de cuidado e as de graduação em saúde
o Governo Federal, desde 2005, iniciando suas
ações pelo Pró-Saúde4 vem implementando
políticas de incentivo ao redirecionamento da
atenção priorizando a organização do sistema
a partir da Atenção Primária à Saúde com consequente deslocamento do ensino para a rede
assistencial pública. Em seguida, ainda com
foco na graduação e para dar continuidade a
proposta de integração ensino-serviço, inicia-se
o PET- Saúde5 (Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde), com objetivo de fomentar
a formação de grupos de aprendizagem tutorial
em áreas estratégicas para o SUS.
Na pós-graduação, em especial na Residência Médica, os Ministérios da Educação e da
Saúde, em decisão interministerial instituem
o Programa de Incentivo à Formação de Especialistas em Áreas Estratégicas, nomeado de
pro-residência6. Em seu objetivo geral destaca-se
a integração de ações uma vez que a definição
das áreas estratégicas e das regiões priorizadas
considera a demanda local de saúde identificada
pelo gestor local.
Recentemente, o Decreto 7.508, de 28 de
junho de 2011,7 regulamenta a Lei 8.080 e dispõe
sobre a organização do SUS, o planejamento
da saúde, a assistência à saúde e a articulação
interfederativa. Avança a gestão no mesmo sentido do cuidado e educação, buscando integrar
práticas, aproximar saberes e otimizar recursos.
Cabe destacar que todos os dispositivos
governamentais citados necessitam, para sua
adequada implementação, de profissionais de
saúde aptos a cuidar, ensinar e gerir suas práticas. A interseção da resolutividade de todos
os programas passa, portanto, pelo preceptor
qualificado para a ação. Embora nosso foco
seja a preceptoria de residentes médicos, não
podemos deixar de destacar a importância do
desenvolvimento dos preceptores que atuam
nas graduações em saúde e, por vezes, são os
mesmos sujeitos envolvidos nos programas de
residência.
Definido este contexto podemos perceber

porque colocamos o preceptor como figura
estratégica ocupando lugar decisivo, central na
constituição e funcionamento de nossas redes de
educação e saúde. Dificilmente o preceptor de
hoje será como o do século passado. Mudam as
práticas, os conceitos, os desafios, a expectativa
da sociedade, as demandas de ensino e aprendizagem. Ser preceptor hoje é saber renovar,
reconstruir, refazer a profissão. Se deparar com o
desafio do domínio de conteúdos que se desatualizam em velocidade assustadora e necessitam
de atualização permanente. Desenvolver suas
habilidades técnicas específicas em consonância com os padrões de acreditação utilizados
nas auditorias das diversas Sociedades. Mas,
acima de tudo, enfrentar o desafio de cuidar da
aprendizagem, não como dono deste processo.
O desafio que se coloca é praticar a preceptoria
sustentando sua ação de educador, compreendendo que educar é um processo reconstrutivo,
de dentro para fora, em direção à autonomia
segundo Maturana8. E, complementando com
Paulo Freire9: educar é exercer influência sobre o
aluno de tal modo que ele não se deixe influenciar.

Novas competências
profissionais para ensinar na
preceptoria
Identificamos o contexto e os desafios atuais
do ofício de ser preceptor. Para conceituar ofício,
buscamos o dicionário Aurélio on-line10 que diz:
é qualquer atividade especializada de trabalho;
profissão; emprego; meio de vida. Preceptores de
programas de residência são profissionais com
especialização na área de saúde, quase nunca na
de educação e que tem, na preceptoria, uma de
suas principais tarefas profissionais. Assim, no
roteiro para um novo ofício, Perrenoud,11 destaca como centrais para o ensino: prática reflexiva,
profissionalização, trabalho em equipe e por
projetos, autonomia e responsabilidade crescentes, pedagogias diferenciadas, centralização
nas situações de aprendizagem e sensibilidade
à relação com o saber e com a lei. Enfim, são
profissionais de saúde que incorporam um novo
Ano 11, Suplemento 2012

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Os desafios na formação de futuros preceptores no contexto de reorientação da Educação Médica

ofício (ensinar) em função de um outro (cuidar)
para o qual se prepararam.
No Brasil, a especialização da preceptoria e a
definição das competências destes profissionais
emerge como tema recorrente quando se discute
a qualidade de implementação das políticas de
incentivo governamental citadas anteriormente.
Estamos em um período de transição de um
ofício que não é imutável. Suas transformações
passam pela emergência de novas competências relacionadas às mudanças no mundo do
trabalho (por exemplo a convivência com os
profissionais da Residência Multiprofissional e
as contribuições do matriciamento), à evolução
das práticas pedagógicas (como o desafio da
educação a distância e da avaliação formativa) e
pela acentuação de competências reconhecidas.
Precisamos apreender o movimento desta
profissão, do ofício de ser preceptor, definindo
competências emergentes cuja importância se
reforça em razão de novas ambições do sistema
educacional já contextualizadas anteriormente. Há que se cuidar da ala conservadora dos
preceptores que, sob o pretexto da ausência de
evidências em relação às novas práticas pedagógicas, segundo Perrenoud11 questionam por que
tanta minúcia quando todo mundo sabe o que
significa ensinar? Não há motivo para complicar
o que é evidente.
Diante de tantos desafios, em tempos de
transição, necessitamos enfrentar a tarefa de
inventariar as competências constitutivas prioritárias de uma identidade de preceptor que
em seu ofício, necessita estabelecer uma nova
relação com as instituição, com o programa e
com os residentes.
Fica com o leitor um convite à reflexão:
considerando as políticas públicas de educação
e saúde do Brasil devemos considerar como
competências essenciais do ofício da preceptoria
aquelas listadas como competências gerais das
Diretrizes Curriculares de Graduação em Saúde? A lógica sinaliza a necessidade do educador,
em processo de facilitação de aprendizagem,
estar apropriado, na relação pedagógica, daquilo
que buscará desenvolver no seu aprendiz. Cabe

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Revista do Hospital Universitário Pedro Ernesto, UERJ

destacar que o processo de construção das DCNs
foi longo, extremamente inclusivo e negociado
entre numerosos agentes. A proposta de um
referencial para o ofício do preceptor obriga
cada um a formalizar suas idéias, perceber suas
próprias incertezas, avaliar as diversidades
dos pontos de vista e até mesmo os limites do
consenso.
Com o objetivo de contribuir para o debate
dos contornos de um ofício novo, convidamos
cada um em seu local de inserção para que
reflita a partir da proposta inicial, desenhada a
partir das competências gerais das DCNs, complementando sua descrição. Assim iniciamos o
caminho em direção á busca de um consenso
neste referencial.
Na tabela 1, adaptada do material produzido por Perrenoud11 em seu livro: 10 competências para ensinar no século XXI, buscamos
correlacionar as competências gerais das Diretrizes Curriculares Nacionais das profissões de
saúde com as competências necessárias à prática
da preceptoria nos tempos atuais.

Profissionalizar-se na
preceptoria: caminho
solitário?
Qual será a reação de um profissional que
lê um referencial de competências que descreve o que supostamente ele deve saber? Pode
favorecer seu “balanço pessoal” e aproximá-lo
progressivamente orientando sua reflexão sobre
o que não domina ou, por outro lado, rejeitar os
“enunciados abstratos”, adotando uma postura
mais conservadora pela dificuldade em lidar
com o que se é e o que se gostaria de ser.
Fato é que a profissionalização é uma transformação estrutural que ninguém domina sozinho. A profissionalização de um ofício é uma
aventura coletiva e não acontece por decreto.
Opções pessoais de preceptores buscando projetos com novas propostas pedagógicas para seus
programas de residência tem acontecido. Mas
a complexidade desta mudança – o reconhecimento do ofício de preceptor como específico

Os desafios na formação de futuros preceptores no contexto de reorientação da Educação Médica

Tabela 1: adaptada do material produzido por Perrenoud11 em seu livro: 10 competências
para ensinar no século XXI.
Competências gerais de referência
presentes nas DCNs

Competência para desenvolvimento no ofício do
preceptor (exemplos)

1- Atenção à Saúde

Para determinada especialidade conhecer os conteúdos,
técnicas e atitudes a serem ensinados e sua tradução em
objetivos de aprendizagem.

2- Tomada de decisões

Fazer balanços periódicos de competências e tomar decisões de progressão. Buscar apoio integral à residentes com
dificuldades de aprendizagem.

3- Comunicação

Desenvolver a cooperação entre os residentes e estratégias
de ensino interdisciplinar. Utilizar ferramentas multimídia e comunicar-se á distância. Refletir e estabelecer
vínculos entre a experiência de aprendizagem e as teorias
subjacentes.

4- Liderança

Instituir e operacionalizar o funcionamento de um conselho de classe regular com preceptores e residentes.
Direcionar as ações por uma visão longitudinal dos
objetivos de ensino.

5- Administração e gerenciamento

Trabalhar a partir dos erros e das dificuldades de aprendizagem. Administar a heterogeneidade no âmbito do grupo
de residentes. Oferecer atividades opcionais de formação.

6- Educação Permanente

Estabeler seu próprio balanço de competências e seu programa pessoal de desenvolvimento. Estimular espaços de
reflexão sobre situações práticas e complexas. Buscar projetos de desenvolvimento comuns aos membros da equipe.

e passível de aprendizado e desenvolvimento –
não é a simples soma de iniciativas individuais.
Nas instituições de ensino na área da
saúde poucas são as experiências formais de
desenvolvimento acadêmico, pedagógico ou
docente de preceptores. No Hospital Universitário Pedro Ernesto vinculado à Universidade
do Estado do Rio de Janeiro, como iniciativa
da Coordenadoria de Desenvolvimento através do Núcleo de Apoio Psicopedagógico ao
Residente, desenvolvemos desde 2010, um
Curso de Formação Pedagógica para Prática da
Preceptoria. Priorizamos os eixos de cuidado,
educação e gestão e organizamos as atividades
de forma semipresencial totalizando 284 horas e
caracterizando o modo de perfeiçoamento profissional. Privilegiamos a construção coletiva em
processo de aprendizagem significativa a partir
de suas experiências no ofício da preceptoria.

Destacamos sua característica multidisciplinar
favorecendo no ato do processo de reflexão e
desenvolvimento de competências, a interdisciplinaridade.
A profissionalização da preceptoria não
avançará se não for deliberadamente estimulada por políticas que incentivem e valorizem
a formação dos preceptores. Todos podem
contribuir, a seu modo, para fazer o ofício da
preceptoria evoluir no sentido da profissionalização. Para isso, precisamos de um referencial
de competências que, mais do que instrumento
reservado ao especialista da educação, se constitui meio para os preceptores construírem uma
identidade coletiva.

Referências
1. Demo P. Professor do futuro e reconstrução do
conhecimento. Petrópolis: Vozes; 2009.

Ano 11, Suplemento 2012

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Os desafios na formação de futuros preceptores no contexto de reorientação da Educação Médica
2. Conselho Nacional de Saúde. Resolução CNE/
CES Nº 4, de 7 de novembro de 2001: Institui
Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso
de Graduação em Medicina. Brasília: Governo
Federal; 2001[Acesso em 26 de março de 2011].
Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/
arquivos/pdf/CES04.pdf.
3. Portal Saúde - Lei 8.080 [Internet]. Brasília:
Ministério da Saúde, Governo Federal; 2012
[Acesso em 26 de março de 2012]. Disponível
em: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/
pdf/lei8080.pdf
4. Pró Saúde – Programa Nacional de reorientação
da formação profissional em saúde. Brasília:
Ministério da Saúde, Governo Federal; 2012
[Acesso em 26 de março de 2011]. Disponível
em: http://www.prosaude.org/
5. PET-Saúde - O Programa de Educação pelo
Trabalho para a Saúde. Brasília: Ministério da
Saúde, Governo Federal; 2012 [Acesso em 26 de
março de 2011]. Disponível em: http://portal.
saude.gov.br/portal/saude/profissional/area.
cfm?id_area=1597
6. Imprensa Nacional. Diário Oficial da União PRO-RESIDÊNCIA, Portaria Interministerial
nº 1001. Brasília: Governo Federal; 22 de
outubro de 2009 [Acesso em 26 de março de
2011]. Disponível em: http://www.in.gov.br/
imprensa/visualiza/index.jsp?data=23/10/2009
&jornal=1&pagina=9&totalArquivos=184
7. JusBrasil – Legislação: Decreto 7.508/11
[Internet]. Brasília: Poder Executivo, Governo
Federal; 2011 [Acesso em 28 de junho de 2011].
Disponível em: http://www.jusbrasil.com.br/
legislacao/1028206/decreto-7508-11
8. Maturana H. Cognição, ciência e vida cotidiana.
Belo Horizonte: Humanitas UFMG; 2001.
9. Freire P. Pedagogia da Autonomia – Saberes
necessários à prática educativa. Rio de Janeiro:
Paz e Terra; 1997.

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10. Holanda AB. Dicionário Aurélio online
[Internet]. Rio de Janeiro; 2012 [Acesso em 26
de março de 2011]. Disponível em http://www.
dicionariodoaurelio.com/#
11. Perrenoud P. Dez novas competências para
ensinar. Porto Alegre: Artmed; 2000.

Abstract
The intent of this paper is to discuss the
importance of the preceptor in a society that
many consider it as “knowledge-intensive society” which is characterized, along with “globalization” of access to information, a growing
demand for learning. In this context includes
the expectation on the production and use of
technology in education, particularly in distance
education.
In our country, public policies play their
role of guiding the guidelines for care, education and health management. In Brazil, the
specialization of the definition of mentoring
and skills of these professionals has emerged as
a recurring theme when discussing the quality
of implementation of government incentive
policies mentioned above.
The professionalization of preceptorship
will not advance unless it is deliberately encouraged by policies that encourage and value the
training of tutors. We need a framework of skills,
rather than an instrument reserved for specialist
education constitutes means for tutors build a
collective identity.
KEYWORDS: Education of health professionals, Skills, Preceptor.